sábado, 28 de novembro de 2009

HU na TV aberta!

Amanhã, quinta-feira 3/12, às 23h00 (TV BRASIL), tem início a transmissão do HU na TV aberta! O filme passa duas vezes, em diferentes horários, em cada canal da rede de TVs públicas e educativas. Publiquei na coluna ao lado as datas e horários de cada exibição do filme. Fica então o convite: assistam e enviem seus comentários aqui para o blog ou por email para enigma_hu@yahoogrupos.com.br.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

HU é lançado no circuito das artes visuais!

A convite do galerista Ronaldo Grossman, o filme HU fará parte da exposição coletiva que inaugura o novo endereço da Galeria Novembro, dia 28 de novembro, em São Paulo. O filme ficará exposto numa TV de plasma pendurada à parede. Ao que parece, nosso querido documentário acaba de ser reconhecido como obra de arte.

No domingo seguinte, dia 29, é o lançamento na TV BRASIL e demais emissoras públicas do país.
Ou seja, sábado o filme invade o circuito das artes visuais e domingo ele estréia na televisão aberta! Já não há como negar sua natureza híbrida. Que venha logo a versão longa-metragem para festivais e circuito comercial de salas de cinema!

A Galeria Novembro fica na Avenida Doutor Arnaldo, 138 | Pacaembu | São Paulo.
A vernissage acontece no sábado 28 de novembro às 16h.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Cinema de verdade


Foi uma noite incrível. Mais de trezentas pessoas lotaram as salas 3 e 4 do Arteplex da Praia de Botafogo na última quinta-feira para assistir ao documentário ‘HU’ (a foto acima é do debate!). A projeção digital estava belíssima (obrigado, RAIN!) e o debate após a sessão foi ‘quente’ como esperávamos. A mesa composta pelos diretores do filme e por Roberto Segre (crítico de arquitetura), Consuelo Lins (professora da Escola de Comunicação) e pela artista visual Rosângela Rennó não desperdiçou a oportunidade de discutir, por pouco mais de uma hora, o filme, o HU, o país. Ela contou ainda com a contribuição de inúmeras participações do público, já que muitos permaneceram na sala para a ‘conversa’ após a projeção. Destaque para as intervenções do Dr. Alexandre Cardoso, atual diretor do HUCFF, do engenheiro Jairo Villas-Boas, ex-diretor da divisão de engenharia do hospital e da professora e arquiteta Margareth Pereira. Todos estes ‘participantes’ do filme que não se fizeram de rogados, pediram a palavra e continuaram e desenvolveram, ali mesmo na sala de cinema, a discussão iniciada no documentário: o filme não se esgotou na tela e, naquela noite, reverberou em muitos dos presentes à sessão. Muito obrigado a todos.


Nas fotos abaixo, as intervenções do Dr. Alexandre Cardoso e da prof. Margareth Pereira.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Enigma III

Ainda o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “Em qualquer lugar, se você cair nas garras do Estado, você só sai delas com muita sorte. Não carece ser brasileiro. Se você vai aos Estados Unidos, veja lá sua relação com o imposto de renda; nem precisamos falar do regime de terror implantado pelo governo Bush filho. Vá a Inglaterra e veja o que acontece se você, sei lá, cruzar a faixa no lugar errado. Caia na besteira de oferecer uma graninha para o policial quando não devia ter feito isso (e, pelo menos no Brasil, vice-versa). Você nunca mais escapa. Vai ficar preso numa rede. O Estado é implacável. A essência da burocracia não é a racionalidade, mas a impessoalidade. A única pessoa ali é o Estado, não tem mais ninguém. O Estado é o grande sujeito. E vice-versa: l’État c’est le Moi.”

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Por que somos assim? (Diário de Montagem VI)


Há algo que me agrada nas diversas entrevistas do filme. Ninguém ali parece evitar a complexidade das questões abordadas. Ninguém parece à procura de um culpado – seja ele uma pessoa, uma idéia, um projeto. Parecem suspeitar tacitamente que o buraco é mais embaixo e o ‘problema’ frequenta a todos. Ecoam até hoje as perguntas do diretor do hospital, Dr. Alexandre Cardoso: “Porque é que somos assim? Nós não podíamos dar continuidade no ano seguinte para que o hospital pudesse ficar pronto? Como é que nós havemos de enfrentar outros desafios sociais?”

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O enigma II


“Um dos traumas típicos, no mundo indígena, envolve uma saída solitária de uma pessoa ao mato, para caçar, por exemplo, a qual desemboca no encontro repentino com esses germes, essas larvas de Estado que são as alteridades-espírito, as agências sobrenaturais com o poder de nos contra-definir: ‘Aqui o sujeito sou eu. Você não é humano coisa nenhuma. Venha pra mim, torne-se um de nós.’ Você topa com uma onça, ela te olha diferente, você não consegue fugir do contato ocular: aí o bicho se transforma (a teus olhos) subitamente em uma pessoa, um parente por exemplo, e lhe pergunta – ‘por que você quer me matar, meu irmão?’ Não responda! – ou você já perdeu. A onça não é teu parente. A onça é a ausência mesma de parentesco.”

“Isso é um pouco como a idéia de Estado, que é suposto se constituir historicamente contra as antigas solidariedades de parentesco. Diante do Estado não somos mais que indivíduos. Todo mundo deve estar eqüidistante do Estado. As pessoas estão articuladas a ele sem mediação dos laços familiares. É você de um lado, sozinho; do outro lado, o Todo. No meio, nada – o vazio relacional. A criação súbita de você como indivíduo particular, como parte, e o Estado como o público, como a totalidade. A parte da parte e a parte do todo: a parte do leão, justamente; o leão do Fisco, a super-onça do Estado. E nós, os cidadãos-caititus, particularmente perdidos na mata da economia capitalista.” (fonte: Eduardo Viveiros de Castro/ Série Encontros: Ed. Azougue)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O enigma I

Reproduzo trecho de entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “O Estado produz aquela mesma sensação de alienação radical que os mortais sentimos diante das entidades sobrenaturais, isto é, imortais. A sensação de se estar completamente sozinho diante de uma transcendência absoluta, completamente alheia, parece-me muito próxima da posição subjetiva do cidadão diante do Estado. É a experiência do cidadão K., do homem qualquer, diante da lei: a despossessão subjetiva extrema, a perda das condições de autodefinição. É essa alteridade que me confronta que define quem sou; estou em suas mãos. Como impedir isso? Como escapar dessa? Questão angustiante.” (fonte: Eduardo Viveiros de Castro/ Série Encontros: Ed. Azougue)

domingo, 30 de agosto de 2009

'HU' no Arteplex dia 3 de setembro às 21h30



Já está tudo confirmado. Na próxima quinta-feira, dia 3 de setembro, às 21h30, haverá a primeira e única (ao menos nesse ano!) projeção do 'HU' na cidade. Serão duas salas do Arteplex (Praia de Botafogo, 316) e, depois da sessão, haverá uma conversa com o arquiteto e pesquisador da FAU-UFRJ Roberto Segre, a documentarista e pesquisadora da ECO-UFRJ Consuelo Lins, e a artista visual Rosângela Rennó. A sessão faz parte da programação do DOCOMOMO, encontro da entidade internacional ligada ao movimento moderno que estará acontecendo durante a semana no Palácio Capanema, no Centro. A projeção será em HD, uma cortesia da RAIN Networks. A entrada é franca e estão todos convidados. Até lá!

sábado, 29 de agosto de 2009

Ref:

Ao longo de todo o processo, lembramos de muita gente (ou melhor, das coisas que muita gente fez e faz). De algumas nos aproximamos, de outras cuidamos nos afastar. Na mesa grande e comprida, sentamo-nos ao lado do Tarkovski de ‘Stalker’ e da obra de Matta-Clark. Evitamos o ‘Hospital’ de Wiseman e as fotografias de Polidori. Nada contra os dois, muito pelo contrário, mas naquele jantar, não tínhamos muito o que dizer um ao outro.

Throughout the process, we remembered many people (or better the things that most people did and do). We got closer to some and decided to avoid others. In the big long table, we sat down next to Tarkovsky of 'Stalker' and the work of Matta-Clark. We avoided the 'Hospital' of Wiseman and Polidori's photographs. Nothing against them, quite the opposite, but at that dinner, we did not have much to say to each other. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Res publica (Diário de Montagem V)

E assim fomos construindo nosso ‘edifício’. O prazo era apertado e muitas vezes parecia que fazíamos dois filmes em um. A montagem sobre a montagem impunha seus caprichos e apresentava, dia após dia, novos desafios. Ao final da primeira semana, já não duvidávamos mais dos caminhos trilhados na filmagem. O negócio agora era não ‘errar a mão’ na representação das situações abordadas. Traduzir em menos de uma hora as complexas ambivalências do lugar supunha evitar a construção de um panorama apocalíptico da saúde pública sem negligenciar a grave situação do hospital (e da saúde pública no país). Era revelar os centros de excelência abrigados pela instituição assim como as diversas estratégias adotadas para driblar a absoluta falta de recursos. Reconhecíamos com progressiva acuidade nosso objetivo: flagrar a dinâmica da coisa pública no país, seu modo de operar. E as consequências muitas vezes perversas dos mecanismos impessoais da burocracia.

Res publica (Editing Diary V ) And so we built our 'building'. The deadline was tight and it often seemed we were doing two movies in one. Editing over and over again had imposed its whims, and presented day after day, new challenges. At the end of the first week, we had no doubt about the pathways of the footage. The business now was trying to avoid a heavy handed representation of the addressed situations. Translating into less than an hour the complex ambiguities of the place implied preventing the construction of an apocalyptic landscape of the public health system, without neglecting the plight of the hospital (and of the public health in the country). It was to reveal the centers of excellence housed by the institution as well as the various strategies adopted to circumvent the absolute lack of resources. We recognized with increasing acuity our goal: catch the dynamics of public affairs in the country, the way they operate. And the often perverse consequences of the impersonal mechanisms of bureaucracy.

Pro quadrado descer redondo! (Diário de Montagem IV)

 
Um quadrado não é fácil de engolir. Percebemos isso logo nas primeiras tentativas com a tela dividida. A esquizofrenia ameaçava. Era necessário ainda que os quadrados não chamassem demasiada atenção para si. Que não se tornassem protagonistas do filme. Deveriam ser sugeridos pelo prédio. Bem digeridos pelo espectador. Ao longo dos 52 minutos, ao público deveria ser dada a oportunidade de compreender os mecanismos do filme. Era mister seduzi-lo ao jogo: sortilégio fílmico. E para que a coisa acontecesse, trabalhávamos nossa construção com extremo rigor.

Round corners make it easy to swallow! (Editing Diary IV ) A square is not easy to swallow. We see this in the first few attempts with the split screen. Schizophrenia threatened. It was also necessary that the squares would not call too much attention to themselves. That they would not become protagonists of the film. They should be suggested by the building. Well digested by the viewer. Along the 52 minutes it should be given to the public the opportunity to understand the mechanisms of the film. It was necessary to entice them to play the game: filmic sortilege. And to make it happen, we worked on our construction with extreme rigor.
Recortamos um quadrado na cartolina preta. Que vez e outra era acomodado em nosso monitor. Só então surgia na tela o quadro que havíamos visto na filmagem. Nas fotos, a Joana (com o quadrado) e a Marina, montadora do filme.

We cut out a square on black cardboard. From time to time we set it on our monitor. Only then it appeared on the screen the picture we had seen in the footage. In the photos, Joana (with the square) and the Marina, the film editor.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dois Quadrados (Diário de Montagem III)

A um só tempo: cheio e vazio; completo e incompleto; vida e morte; hospital e cemitério. Duas metades. Dois lugares. Duas ações-situações-locações. Duas telas. Dois quadrados. A relação é óbvia, direta. Permitia-nos sublinhar a idéia de simultaneidade, de vizinhança. E construir uma outra arquitetura do edifício. 

A razão de nossa ‘janela’ era de 2:1. Ou seja, o comprimento da tela era o dobro de sua altura. Uma proporção invulgar no cinema, mas comum na história da arte. Descobri uma defesa do formato assinada pelo diretor de fotografia Vittorio Storaro. Vi que estava em boa companhia.

A tela não estaria o tempo todo dividida ao meio. Alternaríamos os quadrados com o elegante retângulo de quadrados justapostos. Dois para um. Um para dois. Havia ainda as imagens que funcionavam tanto de um jeito como de outro. E aquelas cujo enquadramento retangular sugeria a divisão em quadrados. 

Two squares (Editing Diary III) At once: full and empty, complete and incomplete; life and death, hospital and cemetery. Two halves. Two places. Two actions-situations-locations. Two screens. Two squares. The relationship is obvious, straight. It allowed us to underline the idea of ​​simultaneity, neighborhood. And build another building's architecture. 

The reason for our 'window' was 2:1. That is, the length of the screen was twice its height. An unusual proportion in the cinema, but common in art history. I found a defense of the format signed by cinematographer Vittorio Storaro. I saw that I was in good company. 

The screen would not be all the time split in half. We would alternate squares with the elegant rectangle of juxtaposed squares. Two by one. One by two. There were also images that served both ways. And those whose rectangular framework suggested the division into squares.

À altura do HU (Diário de Montagem II)

Quando da elaboração do roteiro, apostamos numa construção que desse conta das diversas ações, situações, locações que havíamos conhecido em ambas metades do prédio. Filmamos com entusiasmo nossa aposta. Cumpria agora que ela se materializasse também na montagem.

Qual seriam os limites da chamada montagem paralela? Quantas ações / sequências seria possível articular simultaneamente sem comprometer a inteligibilidade do filme? O percurso que as indagações acima sugeriam passaram a orientar o dia-a-dia na sala de montagem. Vislumbramos a possibilidade de uma representação à altura do que havíamos até então experimentado.

O seguinte era outro, mas a estratégia era essa: 1) separar o que era filme do que não era; 2) montar as situações isoladamente; 3) montar o filme = articular as situações.

Up to the HU (Editing Diary II) When preparing the script, we bet on a construction which would account for the various actions, situations, locations that we had found in both halves of the building. We shot our bet with enthusiasm. We expected the same fulfillment now with edition.

What were the limits of the so-called parallel editing? How many actions/sequences it would be possible to articulate simultaneously without compromising the intelligibility of the film? The course suggested by the questions above began to guide the day-by-day in the editing room. We saw the possibility of a representation up to what we had experienced until now.

The next was another limit, but the strategy was this: 1) separate what was film from what was not; 2) assemble the situations in an isolated way; 3) edit the film = articulate these situations.

Diário de Montagem I

A montagem começou. (Já começou faz tempo, que este blog tem delay. Trata de digestão, culinária e promoção. E digestão é pensar. Pensar com o corpo.) Lembro-me das primeiras visitas ao HU. Distância. Ele nos desafiava às alturas. E aceitávamos o desafio. Mas olhávamos pra cima.

Editing Diary I The edting began. (It began long ago and the blog is on delay. It is all about digestion, cooking and promotion. And digestion is thinking. Thinking with the body.) I remember the first visits to HU. Distance. He challenged us to the heights. And we accepted the challenge. But we looked up.

terça-feira, 21 de abril de 2009

o outro lado


Hoje é aniversário de Brasília, capital de um Brasil que passou a ser construído no tempo em que se abandonava outro. Segue a homenagem nas palavras de Nicolas Behr, poeta goiano radicado na cidade. O HU continua de pé.


Poesia Pau-Brasília

quando será inaugurada em mim esta cidade?

no dia da inauguração
os candangos jogaram
seus sonhos para cima

quem pegar pegou

dor arquivada
felicidade protocolada
utopia adiada

brasília é o fracasso
mais bem planejado
de todos os tempos

brasília é a incapacidade
do contato afetivo
entre a laje
e o concreto

bicos de seios
apontam a direção
do monumento na
cidade plana
sem seios
sem desejos

o poema 
é área pública
invadida pela
imaginação

assim nos queremos viver,
nós dissemos

assim nós queremos que vocês vivam,
disse o arquiteto

as mudanças no plano piloto
as mudanças em mim

você ri né jk
vai rindo vai rindo
até você ver
o que fizeram
com sua cidade

brasília
não envelheceu

abrasileirou-se.